sábado, 8 de janeiro de 2022

Caso de Secretária, Carlos Drummond de Andrade


    Foi trombudo para o escritório. Era dia de seu aniversário, e a esposa nem sequer o abraçara, não fizera a mínima alusão á data. As crianças também tinham se esquecido. Então era assim que a família o tratava? Ele que vivia para seus, que se arrebentava de trabalhar, não merecer um beijo, uma palavra ao menos!
    Mas no escritório, havia flores à sua espera, sobre a mesa. Havia o sorriso e o abraço da secretária, que poderia muito bem ter ignorado o aniversário, e entretanto o lembrava. Era mais do que uma auxiliar, atenta, experimentada e eficiente, pé-de-boi da firma, como até então a considerara; era um coração amigo.
    Passada a surpresa, sentiu-se ainda mais borocochô: o carinho da secretária não curava, abria mais a ferida. Pois então uma estranha se lembrava dele com tais requintes, e a mulher e os filhos, nada?
    Baixou a cabeça, ficou rodando o lápis entre os dedos, sem gosto para viver.
  Durante o dia, a secretária redobrou de atenções. Parecia querer consolá-lo, como se medisse toda sua solidão moral, o seu abandono. Sorria, tinha palavras amáveis, e o ditado da correspondência foi entremeado de suaves brincadeiras da parte dela.
-O Senhor vai comemorar em casa ou numa boate?
Engasgado, confessou-lhe que em parte nenhuma. Fazer anos é uma droga, ninguém gostava dele neste mundo, iria rodar por aí à noite, solitário, como o lobo da estepe.
- Se o senhor quisesse, podíamos jantar juntos - insinuou ela, discretamente.
E não é que podia mesmo? Em vez de passar uma noite besta, ressentida - o pessoal lá de casa pouco tá ligando -, teria horas amenas, em companhia de uma mulher que - reparava agora -era bem bonita.
    Daí por diante o trabalho foi nervoso, nunca mais que se fechava o escritório.Teve vontade de mandar todos embora, para que todos comemorassem o seu aniversário, ele principalmente.Conteve-se, no prazer ansioso da espera.
- Onde você prefere ir? - perguntou, ao saírem.
- Se não se importa, vamos passar primeiro em meu apartamento. Preciso trocar de roupa.
Ótimo, pensou ele;- faz-se a inspeção prévia do terreno, e, quem sabe?
- Mas antes quero um drinque, para animar - ele retificou.
    Foram ao drinque, ele recuperou não só a alegria de viver e fazer anos, como começou a fazê-los pelo avesso, remoçando. Saiu bem mais jovem do bar, e pegou-lhe do braço.
    No apartamento, ela apontou-lhe o banheiro e disse que o usasse sem cerimônia. Dentro de quinze minutos ele poderia entrar no quarto, não precisava bater - e o sorriso dele, dizendo isto, era uma promessa de felicidade.
    Ele nem percebeu ao certo se estava arrumando ou se desarrumando, de tal modo os quinze minutos se atropelaram, querendo virar quinze segundos, no calor escaldante do banheiro e da situação. Liberto da roupa incômoda, abriu a porta do quarto. Lá dentro, sua mulher e seus filhinhos, em coro com a secretária, esperavam-no cantando "Parabéns pra você".

Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1988.


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Modalidade EaD como pressuposto para o Conformismo Universitário


 Início de conversa:

É sabido que as discussões da modalidade EaD como requisito para as perspectivas do Ensino Superior não tem sido de hoje. É um ganho, uma vitória e iniciativa louvável, sobretudo para os menos favorecidos e pobres do país para a universalização e igualdade do Ensino Universitário para todos (não é esse o discurso do governo?).
              
Sendo assim, muitas políticas públicas voltadas para esse propósito tem andado a passos de tartaruga e vista ante nossos olhos como algo indelével e sonhador. No nosso caso – estando à frente de muitas localidades - , estamos sendo protagonistas desse projeto em Camocim, por ser a primeira turma de Letras iniciada nos parâmetros de 2008.2. Tanto que o chamado “preconceito em Ead” (se o termo ainda não existe, eu o dou livre acesso para a sua expansão nos artigos e ensaios mundo afora após o batismo do mesmo desde que referenciado, CLARO!), diminuiu bastante em Camocim. Isso é uma constatação local.

Mas, essa minimização de preconceitos tem acontecido devido o nível que a nossa turma tem desempenhado e por sermos profissionais do Magistério em uso (ou os colegas são ingênuos De desconhecimento de que somos conhecidos por aí e apontados com expressões do tipo: olha aquele professor de escola tal estuda no na UAB/UFC ?) i.é: somos marketings do academicismo que fazemos parte e estamos vendendo o produto modalidade Ead a distância. 


1. Um olhar ao Instituto Virtual da UFC confrontando com outras realidades de Ensino a Distância   

Nós, alunos da Universidade Federal do Ceará temos orgulho e nos dedicamos a faculdade que fazemos parte. Não somos os melhores. Mas esforçamo-nos para aprender o que nos é proposto pelas ementas de cada disciplina que estamos percorrendo. No entanto, alguns questionamentos podem ser feitos:

O conteúdo que estudamos e material didático, é o mesmo do encontro presencial da UFC em Fortaleza e campus? E a dedicação e cobrança dos tutores são eficazes de maneira que há uma fiscalização objetivando o bom andamento das turmas? E por que não temos em Camocim um Campus da Universidade Federal do Ceará? Quando o coordenador do nosso curso porá os pés em Camocim?

Sei que posso ser entendido com deboche por alguns colegas. Mas não podemos aceitar “goela abaixo” o fato de termos em nossas mãos a oportunidade de fazer uma faculdade a distância não tanto planejada ainda que seja a Universidade Federal do Ceará. Sei também que a que fazemos aparenta ter zelo e planejamento perspicaz por parte das “coordenações”.

Creio que depois de mais de 3 anos de UFC em Camocim já deveríamos ter o privilégio de conhecermos a UFC em Fortaleza e esta ter desejo de vir a Camocim com pelo menos a coordenação geral e o corpo docente para algum tipo de Congresso ou Semana Acadêmica de vergonha.  Deixo claro, no entanto,  já aqui, que não estou querendo criar afronta. Quero antes, expor questionamentos, muito embora no último dia do fórum.
2. O direito de escolha para o neo-acadêmico

Mesmo com as universidades abrindo espaço na modalidade em EaD, não pode deixar com que a população em geral não tenha o direito de escolher o tipo de universidade que se queira fazer. É mito pregar por aí que a EaD seja a modalidade por excelência ou a única que pode ser a salvadora da pátria. Sabemos bem que existe todo um apanhado de teias de aranhas que a circunda.  Já ouvi muita gente dizer que quem faz a faculdade é o aluno. No entanto, se as universidades não brigam pelo melhor no seu corpo docente para ter os melhores no seu exército discente a ser formado não se pode levar esse provérbio a vigor.

Não se pode tornar obrigatoriedade ou única opção de “escolha” a EaD. Deve-se, antes, abrir opção de escolha.

3. Considerações minhas:

Sabe-se que a caminhada da Educação passou por transformações positivas, mas herdou-se tristes constatações de analfabetismo e descaso, por exemplo, para com o corpo docente brasileiro e formação dos brasileiros em si.
Hoje, tenta-se “voltar atrás” com desespero de iniciativas públicas e políticas com o aproveitamento barato do grito do magistério esperançoso de mudança na área do Palco do Saber. Sendo assim temos vários projetos e iniciativas para minimizar essa triste herança que vemos hoje nas salas de aula e atitudes de cidadãos brasileiros que foram-se burrificando com o passar do tempo nos moldes do colonialismo inicial.
Quando se trata do Ensino Superior, temos muitas perspectivas e desejamos de fato por “olhos nos estudos”, “cara nos livros”... No entanto, se toda essa gama de incentivas e perspectivas que se usa na EaD estivesse consubstanciado com o Encontro Presencial como se tem nas universidades, estaríamos cheios de privilégios.
Por mais que tenhamos a máquina e a didática modernizada ante nossos olhos, é bem diferente se tudo isso que é a EaD fosse numa universidade em que tivéssemos aulas todos os dias com professores presenciais. No dia que o aluno não tiver professor para aprender, isso não será educação superior. Será antes, pressuposto de academicismo barato com o intuito de colar grau com desespero.
Concluo dizendo que cresceríamos e aprenderíamos mais ainda se toda esse apanhado de iniciativas em EaD fosse num regime de aulas presenciais com professores nitidamente e palpavelmente presenciais.

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Por Cássio José dos Santos Sousa
Especialista em Língua Portuguesa com ênfase em Literatura Brasileira pela FALC
Graduado em Licenciatura Plena em Letras - Português pela Universidade Federal do Ceará 
Graduado em Pedagogia pela Anhaguera
Pós-graduando em Língua Portuguesa e Filosofia pela Faciba

AVALIAÇÃO DE LÍNGUA PORTUGUESA - GABARITADA SOBRE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA, NOÇÕES DE FONÉTICA E FONOLOGIA

                  AVALIAÇÃO DE LÍNGUA PORTUGUESA - GABARITADA  Texto para a questão 01. Só há uma saída para a escola se ela quiser ser ma...